“Se quisermos brilhar mais do que Jesus, não vamos ter sucesso”, diz padre Pedro, em despedida da matriz

Após três anos na paróquia Imaculada Conceição, o sacerdote está de mudança para São Caetano do Sul

Por Lauana Viana

Semblante sereno e personalidade forte, além de uma homília quase educativa. Essas são características de padre José Pedro Teixeira de Jesus, 62 anos, 40 deles dedicados à vida cristã – sete de seminário e 33 de sacerdócio. A partir do dia 10 de fevereiro terá nova residência: a Paróquia São Bento, em São Caetano do Sul. A nomeação foi feita pela diocese em 26 de dezembro.

Nossa conversa foi após a última missa celebrada na capela Santa Teresinha do Menino Jesus, uma das comunidades da matriz. Foi lá que celebrou sua primeira missa há três anos, ao chegar na paróquia. “Eu tive muita alegria nesta comunidade”, lembra, com carinho.

“Em três anos, Jesus fez tudo o que fez, e eu não consegui terminar nem essa capela. Espero que vocês deem continuidade”, brinca, provocando sorrisos. A obra na capela está paralisada por problemas judiciais quanto ao projeto e a alterações feitas sem autorização pelo engenheiro responsável.

Sobre o anúncio da mudança de paróquia, explica que também acreditava em sua permanência inicial de seis anos em Diadema. “Como estou a serviço da diocese, não criei problema nenhum”, afirma. Questionado se a transferência estaria relacionada a algo ocorrido na própria matriz, foi enfático: “Não, de forma alguma. Pelo menos, até onde eu vejo, não”.

Avaliando a participação dos fiéis nas pastorais e movimentos, ressalta: “É evidente que sempre tem dois ou três que gostam de coordenar, mas de não fazer nada”. Sobre isso ter ocorrido com frequência, acrescenta: “Em todas as comunidades têm aqueles que são mais católicos do que a Igreja, que são mais puros do que outros, menos pecadores. Mas isso não é um privilégio, infelizmente, da matriz”.

Entre todas as atividades realizadas na Imaculada Conceição, uma se destaca por ser de sua autoria: as visitas aos jovens da Fundação Casa de Diadema. Revela que sempre teve vontade de iniciar o trabalho devido ao caso Champinha – na época (2003), adolescente e envolvido na tortura e assassinato de um casal em São Paulo.

O crime reacendeu o debate a respeito da maioridade penal no país. “A gente não entende, às vezes, o desígnio de Deus. Hoje digo que, com certeza, um dos motivos de eu ter vindo para cá foi por causa desse trabalho”, afirma.

Confira abaixo a entrevista e o vídeo com mensagem deixada aos paroquianos.

O que este tempo na matriz significou em sua trajetória como sacerdote?
Um grande desafio. É uma paróquia grande, mas não de tamanho. É grande na santidade das pessoas. Todo domingo eu sempre me surpreendi muito com a quantidade de pessoas fervorosas participando da celebração. Vi muita gente disponível para atender enfermos, para socorrer os moradores de rua, para dar catequese, para fazer a faxina da igreja. Isso me encantou. Eu levo como uma grande experiência de comunidade.

Quais os pontos negativos e positivos da paróquia?
Vou utilizar uma frase do Papa Francisco. Ele diz que nós somos chamados a ser como a lua. A lua não tem brilho próprio. Ela reflete o brilho do sol. Então, se nós quisermos brilhar mais do que Jesus, não vamos ter sucesso, porque temos que refletir a luz que é Jesus Cristo para o irmão. Agora, se olhar com mais cuidado, vai verificar que a lua tem manchas, assim como nós. A matriz reflete Jesus Cristo em Diadema, mas é evidente que vai ver uma mancha aqui e outra ali, que são os nossos pecados. Mas isso é novidade? Não. Nós dizemos que a Igreja é santa e pecadora. Então, isso também está dentro do previsto. Eu prefiro responder dessa maneira.

Quais características a matriz deve manter e mudar?
Penso que a matriz precisa assumir mais a convicção de que somos todos batizados. De vez em quando alguém é tratado como um não-batizado, que se pudesse sumir e não aparecer mais seria ótimo. Isso tem que acabar. Eu posso discordar de você, mas não posso te impedir de servir. Por outro lado, algo que deve continuar é essa disponibilidade, da grande maioria, de servir dentro das suas limitações, dentro da sua realidade. Servir os irmãos, servir o próximo. Ser essa lua que reflita Jesus.

Na paróquia há diversas pastorais, grupos e ministérios. Houve algum que mais se identificou?
“Há muitos dons e o Espírito é o mesmo.” Me encanta ver como isto acontece em uma comunidade. Muitos ministérios, muitos dons. É importante lembrarmos que se eu impedir alguém de exercer o seu ministério, eu estou impedindo o dom do Espírito Santo. Não tenho um trabalho pastoral com que eu me identificasse mais. Eu diria que alguns trabalhos me questionaram mais e me ajudaram a repensar meus valores. Por exemplo: os Mensageiros do Amor, a Fundação Casa, a Pastoral do Idoso, a visita aos enfermos. Que dificuldade muita gente vive! E não é somente material, é ser acolhido na comunidade. Isso me questionou bastante.

Pode falar um pouco sobre a experiência de visita aos jovens na Fundação Casa?
Nós estávamos com a Campanha da Fraternidade sobre a superação da violência (CF 2018). Nós fomos tratar deste tema dentro da Fundação Casa. Ali entendi que eles vivem em um mundo muito diferente do nosso. Não dentro da fundação, mas com as famílias deles. São famílias que não conseguiram elaborar os mesmos valores morais e éticos que nós. Nós não conseguimos atingi-los, porque os nossos valores morais e éticos são bem diferentes dos deles. Então, nós fazemos um discurso para nós mesmos. Não fazemos um discurso para uma sociedade que precisa repensar seus valores.
Por exemplo: eu dizia “vocês acham certo matar?”. E um deles falou claramente: “Olha, meu amigo me traiu, saiu com a minha mulher. Se eu não matasse ele, eu ia ficar desmoralizado”. Isso não passa na nossa cabeça, mas é uma realidade. São coisas assim que fizeram eu repensar meus valores. Não estou de acordo que se resolva na bala, mas penso que a gente tem que ponderar duas ou três vezes o que significa, para nós, honra, e o que significa honra para eles. Caso contrário, nós vamos continuar nos purificando e crescendo na fé, mas sem ajudar o outro a crescer.

Quais são suas expectativas para a nova paróquia?
É minha paróquia de origem, foi dali que eu saí para ir para o seminário. Sinceramente, a minha expectativa é de poder dar conta de anunciar o Evangelho. Vamos ver os desafios que tem lá. Embora [seja] minha paróquia, eu saí de lá há 40 anos. Então é difícil dizer que eu conheço a comunidade.

Qual a mensagem que deixa para o próximo pároco da matriz?
Que ele continue firme na fé, que não desanime na caminhada e que conte com 99% da comunidade.

E esse 1% restante?
Olha, esse 1% pode valer para cada um de nós, como reflexão. É para pensarmos.

No domingo 20/1 rendemos Graças a Deus pelo tempo em que o Pe. Pedro esteve a frente de nossa paróquia como pároco em sua Missa de Envio. Ele ficará conosco por mais alguns dias, mas não celebrará mais Missas na paróquia, essas por sua vez ficarão a cargo do nosso Vigário Pe. Alex, a Missa de posse na Paróquia São Bento em São Caetano do Sul está marcada para o dia 10/2/2019 às 10h. (Endereço: Rua Bom Pastor, 1.248– Bairro Olímpico).